Ana da Força
O meu nome é Ana. Sobre mim escrevo eu.
Foi assim que comecei a minha participação neste livro.
Com a minha arrogância habitual.
Por esta altura, imagino que quem me leu já tenha passado por um misto de sentimentos a meu respeito.
São assim os leitores… a maioria, pelo menos!
Confusos, sensíveis, manobráveis e sempre prontos a desculparem tudo e todos… até as cabras como eu.
No início foi mesmo isso que me devem ter considerado: uma verdadeira cabra!
As verdadeiras cabras, suscitam sentimentos de ódio, de raiva, de paixão mas nunca de indiferença.
Uma cabra como deve de ser consegue sempre ser a mais interessante das personagens.
Não é por acaso que os actores têm preferência por serem os maus da fita, em vez dos bonzinhos e normalmente mais enjoativos e menos intrigantes.
As cabras, os malandros, os sacanas, os canalhas têm o dom de aguçar o lado mau que existe em todos nós e que raramente admitimos.
Frequentemente delicio-me a escutar por aí os comentários que se fazem a este tipo de personagens, e não posso deixar de sorrir.
Um sorriso carregado da minha arrogância habitual, de alguma ironia e de tristeza também.
Caso não saibam, nós as cabras, também temos momentos de tristeza.
Momentos até de extrema e penosa tristeza, no caso particular desta cabra que sou eu.
Ouço-os para aí opinar o quanto as ditas personagens são interessantes e polémicas.
Observo-os por aí dedicados à análise do desenvolvimento das suas personalidades, considerando-o sempre surpreendente, tudo isto, obviamente, não colocando nunca em causa a elevada e qualificada capacidade de analisar de que se julgam afortunados possuidores. Capacidades e qualificações indiscutivelmente merecidas dada a quantidade, essa sim verdadeiramente surpreendente, de novelas, filmes e livros de má qualidade que vão papando e querem continuar a papar clamando sempre por mais e mais e mais.
Manhosamente cobardolas é o que são, esquecem-se de admitir que é uma maneira confortavelmente cobarde de assistir, sentadinhos no sofá, a um pouco do mal que todos nós gostaríamos de fazer e para o qual não temos coragem.
É uma forma medíocre de serem também, um bocadinho mauzinhos sem se sentirem como tal, evitando assim a culpa e risco que os verdadeiros maus não deixam de correr.
Agrada-me que passem por esse misto de sentimentos ao ler-me… porque como boa cabra que sou tenho mais, muito mais, para vos dar.
Já perceberam que sofro de uma coisa a que os psiquiatras chamam múltipla personalidade.
A verdade é que a frase em si é já uma incoerência, como se pode dizer que se sofre de algo, se é esse algo que nos evita o sofrimento.
- Afinal a cabra é cobarde e também tem medo do sofrimento!
Estão vocês meus queridos, adoráveis, simpáticos e inteligentes leitores agora a pensar.
Agora sim, estão a ser o que realmente sempre vos considerei: mauzinhos, com a mania que são espertos e sempre, sempre prontos a vingarem-se das que consideram cabras como eu apontando-lhes o dedo.
Admitam, há um pouco de mim em cada um de vós.
Admitam!
Vão ver como se sentem, senão melhor, pelo menos um pouco mais corajosos, um nadinha menos cobardes.
Virem esse dedo que me apontam na vossa própria direcção.
Aí sim, estarão finalmente a ter alguma da porra da honestidade que apregoam por tudo quanto é sítio, sem que nunca o cansaço vos tome, sempre que a oportunidade vos surge.
Pois, caríssimos leitores, o que vos digo é que não sei.
Talvez até seja assim.
Um Chico esperto qualquer de um psiquiatra que vos explique.
Eu não morro de amores por eles, por isso poucas perguntas lhes faço.
Se não confio nas respostas para quê gastar perguntas?
Principalmente para quê gastar as palavras que amo em vez de as guardar para quem as beba comigo.
Para quem nelas se envenene comigo.
Para quem nelas se mate e renasça comigo.
Para quem nelas se enterre e com amor as foda comigo.
Para quem nelas se alimente comigo. Devorando-as ou saboreando-as, sôfrega ou delicadamente comigo.
Para quem nelas se esfregue violentamente comigo.
Para quem nelas se entregue em doces e ternas carícias comigo.
Caso não saibam, nós, as cabras, também amamos.
Eu sou uma cabra que ama as palavras.
A fulaninha que escreve este livro também as ama, foi por isso que concordou que fosse eu a escrever sobre mim, porque partilhamos este amor desmesurado pelas palavras.
Também partilhamos a vontade de não ter os psiquiatras, psicanalistas e afins por perto.
Eu quero-os longe de mim.
Quero-me o mais longe possível das suas elevadas e fundamentadas teorias.
Sei como chamam a esta coisa de que “sofro”, e chega!
Sei quando as Anas começaram a aparecer e vocês também sabem que já vos contei.
Tadinhos, não vos quis ver sofrer de tanta curiosidade.
Afinal a cabra até é boazinha quando quer e teve pena do coitado do leitor roendo-se de curiosidade!
Oh, abominável sentimento esse, a curiosidade!
As Anas, como sabem, apareceram quando um monstro doente, certamente também, em estado de insuportável sofrimento, entrou dentro de mim.
Carinhosamente chamou-me querida, enquanto à força, me penetrava com uma brutalidade que apenas consigo descrever como animalescamente monstruosa.
Força, é uma triste força de expressão, pois nem força o coitado do "animalzinho" doente teve de fazer.
Limitou-se a aliviar a dor da sua doença em mim.
Eu morri.
Morri, pronto!
Estava morta.
Morri afogada no vómito da minha alma.
Morri e nasci novamente.
Nasci de novo e surgi renascida pelo menos tão monstruosa e doente como o monstro doente.
Renasci com uma doença chamada múltipla personalidade, dizem os psiquiatras, psicanalistas e demais estudiosos da mente humana.
Só não sei o porquê das minhas personalidades terem todas o mesmo nome.
Nos filmes e nos livros que tenho visto e lido, cada uma tem um nome só para si.
As minhas não.
Que pobreza!
Nós somos todas Anas.
Talvez seja porque gostamos do nome.
Ou talvez seja devido à minha, já vossa conhecida, arrogância e maldade.
Sou tão má, tão má, que obriguei as minhas múltiplas personalidades a terem todas o meu nome. Sou mesmo cabra!
Nem um nome, só delas, as deixo ter.
Logo a elas a quem tanto devo!
Logo a elas a quem deveria estar tão grata!
Afinal, vieram, qual corajosas cavaleiras andantes, salvar a donzela cabra, em apuros do seu extremo sofrimento, da sua dor lancinante, e nem o direito a um nome lhes foi dado.
Pois é, meus caros leitores, gostava de vos garantir de que sou inteiramente culpada de mais essa maldade, da qual sem dúvida me orgulharia, mais que não fosse pela capacidade de controlar com esse requinte malévolo a doença de que sofro, mas a verdade, quer acreditem quer não, é que não sei o porquê das coitadas terem todas o mesmo nome.
E nem isso me preocupa por aí além, confesso!
Afinal Ana é um nome bonito e apesar de não terem um nome diferente tem a diferença nas personalidades, essas sim completamente distintas umas das outras.
Que maneira melhor de ser diferente?
Todas nós escrevemos. Não contamos informar-vos muitas vezes qual de nós está a escrever. Uma vez ou outra, talvez não vos seja fácil perceberem qual de nós está presente nestas palavras, por exemplo quando falamos no monstro doente quase sempre estamos muitas, mas nem sempre, hoje até agora estou só eu.
Eu sou a Ana da Força.
Sou a mais forte de todas as Anas.
Sou a que vem quando qualquer uma das outras começa a fraquejar.
A Ana que estava connosco hoje ao acordar, acordou frágil, muito, muito frágil.
Acordou ela e com ela acordaram mil fantasmas adormecidos.
Outra Ana tinha-os posto a dormir há já muito tempo mas a fragilidade daquele despertar despertou-os também.
Os fantasmas, como os micróbios, como as bactérias, como os fungos e como os amores tumores gostam da fragilidade e da insegurança.
Na fragilidade sentem-se em casa.
É aos terrenos frágeis, aos solos inseguros e pantanosos que gostam e podem chamar de "lar".
É lá que constroem habilmente as suas armadilhas, as mesmas armadilhas em que, por vezes, caímos e das quais nos tornamos eternos prisioneiros.
A Ana acordou assim, frágil insegura e rodeada de fantasmas bem despertos, prontos a atormentar-nos, dispostos a armadilhar disfarcada e habilidosamente o nosso chão.
O seu primeiro arrepio fez-me vir logo a correr.
Um simples arrepio é um sinal de SOS para mim.
Eu cheguei correndo, ela fugiu e eu fiquei.
Sou a Ana da Força.
Ana é o meu nome.
A Força é o que me distingue das outras Anas.
Desta vez tenho intenção de a usar para nos dar força para partir.
Partir para uma longa viagem que todas concordamos ser necessária.
Uma viagem que nos torne inteiras.
Uma viagem que nos torne vivas e independentes.
Umas viagem que nos faça de novo, crescer, florescer e renovar.
Recentemente li num livro um ditado japonês que diz:“ Na viagem companhia, na vida compaixão.”
Talvez a tal fulana que escreve este livro até concorde, ela é uma grande admiradora da cultura oriental.
Eu não concordo e acho quase todos os ditados, principalmente os da dita “cultura oriental”, bastante idiotas.
Companhia na viagem, porquê?
As viagens com sentido, com propósito, com um fim, fazem-se sós.
As viagens com sentido e com propósito não têm destino pré definido, ou caso tenham, acreditar que ele se cumpre é pura idiotice ou ingenuidade.
O destino vai-se encontrando e só caminhando sós, conhecendo cada pedra da estrada da solidão poderemos vislumbrar o destino de uma viagem.
Vislumbrar.
Vislumbrar, somente, porque conhecer apenas conhecemos o destino da nossa última viagem: a viagem com destino à morte.
Origem- Nascimento
Destino final- Morte
No meio, muitos são os, caminhos, as paragens, os vários pequenos destinos, todos, no fundo, uma ligação entre o nascimento e a morte.
Compaixão na vida?
Mais ridículo ainda.
Na vida, com/paixão, isso sim!
Na vida, com amor isso sim!
Na vida, com coragem, isso sim!
Na vida, com força, isso sim! Na vida, com luta, isso sim!
Na vida, com garra, isso sim!
Na vida, com raiva, isso sim!
Na vida, com tesão isso sim!
Na vida, com Vida, isso sim!
Na vida, com Vida a transbordar, isso sim!
Esta viagem, no entanto terá de ser feita com companhia.
Com a companhia da Luísa.
É uma viagem de vida.
Por isso tem de ser feita na companhia de quem nos mata.
Temos de nos libertar da Luísa.
Temos de nos despegar da Luísa.
Eu Ana, nós Anas, somos monstros doentes.
Mas eu Ana, nós Anas, não queremos continuar a ser monstros doentes e aberrações ainda dependentes deste maldito sentimento que nos engole nos mastiga, nos devora, mas sem o qual murcharíamos.
Eu Ana Força darei força às outras Anas para iniciar esta viagem.
Temos muito para decidir:
Quando partir?
Como enganar o idiota com quem a Ana se casou?
Como evitar que ele nos procure?
Como não deixar rasto?
Como passar despercebidas?
Como ir buscar a Luísa?
Terá ela força?
Saberei eu, Ana da Força dar-lha, caso ela não a tenha?
Entenderá aquela idiota que temos de nos separar para nos podermos abraçar de novo?
Onde está o teu abraço Luísa?
Onde está a tua mão quente sempre suada?
Onde esta essa voz tolinha que me dizia coisas mais tolinhas ainda e me fazia sorrir?
Onde estão os teus cabelos deitados no meu colo, roçando as minhas pernas enquanto enrolada em sofrimento choravas molhando de sal doce a minha pele?
Onde estão os teus dedinhos finos desenhando círculos nas minhas orelhas enquanto a tua boca me sussurrava segredos ao ouvido?
Onde estão esses teus olhos desesperados e sedentos de carinho pedindo sempre mais, dando sempre um tudo que eu achava sempre pouco?
Onde estão as tuas promessas que eu ridicularizava mas me enchiam de conforto?
Onde está a música das tuas palavras cantando para mim: “…nunca vou gostar de ninguém como gosto de ti Ana”.
Onde está a Ana da Força?
Onde está a Ana da Força?
Foi embora.
Foi embora com a lembrança da Luísa.
Agora estou aqui eu novamente. Frágil, fraca, pequenina…
Agora estou aqui eu, uma planta doente, um centro morto de saudade, rodeado de folhas ainda vivas que mais não são que braços abertos chamando por ti.
Isabel
(Continua)

"Luta"
Fotografia de Helena Isabel Ponce

Quero agradecer ao Nilson Barcelli do Nimbypolis, http://nimbypolis.blogspot.com/, por me ter nomeado como um dos blogs que o fazia pensar, vindo dele e sendo ele um dos meus nomeados " indutores de pensamento" não posso deixar de me sentir honrada. Quero também agradecer-lhe por me perguntar o porquê de eu não escrever hà uns tempos e isso o fazer preocupar-se com o estado de minha alma. É bom, tocante e estimulante receber essas pequenas/grandes atenções de quem nos conhece apenas através da escrita. O meu estado de alma está bem, embora muito atormentado com a falta de tempo para escrever e para ler ( ler inclui as visitas aos vossos espaços e as leituras interessantes que por lá encontro) . Lutarei com todas as minhas forças contra essa falta de tempo e sempre que sair vencedora dessa batalha aparecerá algo aqui escrito por mim e um sinal da minha presença nos vossos espaços.