quarta-feira, novembro 08, 2006

Começar de novo

Carlos ( segundo excerto)
11.27, despertou com o toque do telefone e um sorriso nos lábios.
Aquele toque era o dela, “Drive” dos Cars.
Ela era a sua melhor amiga.
“Who’s gonna drive you home tonight?” dizia a letra.
Era a sua música favorita.
Contara-lhe que sempre se sentira assim, desprotegida, sem ter quem levasse de regresso a casa.
Um dia ela deitou a cabeça no ombro dele e informou-o de que já não se sentia assim. Que agora o tinha a ele.
-És o eleito. Comunicou-lhe com o olhar transbordando carinho.
-A partir de hoje elejo-te o meu cavaleiro andante.
Mas atenção meu amigo, a minha música favorita continua a ser a mesma, muda apenas o significado. Antes representava o meu presente, agora é o símbolo de um passado que hoje dou por terminado. Tu estás aqui e tomar conta de mim é da tua responsabilidade até ao fim dos teus dias.
Fora o momento mais intensamente comovedor daquela longa amizade.
Declararam-se mutuamente, fizeram juras de eterna amizade e dedicação, choraram abraçados, até que por fim, consumidos pela ternura, no pico da emoção, fizeram um pacto que não tinham ainda quebrado nunca: Tomarem para sempre conta um do outro.
A empresa tinha-lhe dado um desses telefones modernos com possibilidade de personalizar os toques, fê-lo apenas para uma pessoa: para ela.
Béti a sua melhor amiga.
Com um sorriso ainda ensonado na voz atendeu.
-Olá minha doida, hoje madrugaste?
-Bom dia amiguinho, escuta isto: “...ela abriu as pernas e ele penetrou-a com a alma, porque é assim que se penetra um ser que se ama. A alma usa o sexo apenas como instrumento”.
Estás a ouvir Carlos?
Entendes? É isto que eu quero, ser penetrada com a alma.
Tenho 36 anos, será pedir muito?
-Bastante minha amiga, lamento desapontar-te mas há quem passe toda uma vida sem sentir isso nunca. O que estas a ler Béti?
-Um livro que me emprestaram ontem e está a deixar-me completamente maluca.
-Isso vejo eu! E Como se chama esse bendito livro que consegue deixar completamente maluca a mais ajuizada das raparigas?
- Acordou cheio de gracinha o menino! Deve ser já a sonhar com o jantarinho de Natal da empresa com o galã de meia tigela do Ali, não?
Bom, adiante, o livro chama-se “ Valer a pena” não conhecia o autor, um tal de Andrea Vitti, é Italiano acho!
-Um dia vão-te amar assim Béti, eu sei. E nessa altura vais quebrar o nosso pacto e não queres mais saber de mim. Eu que fui o escolhido para ser o teu cavaleiro andante!
- Olha, sabes o que tu és meu amorzinho? És louco, ciumento e invejoso mas podes estar descansado, o meu cavaleiro andante serás sempre tu! Disse com a sua tão característica e estridente gargalhada.
-Carlos! Berrou quase lhe furando os tímpanos.- Trata mas é de acordar que vou para ai! Vamos às compras e fazer um almoço tipo milagre: fantástico e baratinho. Boa?
-Boa! Anda lá minha chata querida, não descansas enquanto não me fizeres engordar e ficar um monstro gordo e feio, e depois nenhum homem me pega. É esse o teu desejo secreto, não é?
- Não tolo! É esse o meu desejo assumido. Replicou rindo. -Assim ficas todinho só para mim! Vá, beijo, tou a caminho.
Desligou.
Carlos deixou-se ficar de ronha apenas uns minutos. Sabia que a amiga ia chegar cheia de energia e queria ter já o duche tomado e café feito quando ela chegasse. Gostava de mimar a amiga com estas pequeninas coisas.
Estava a sair do duche enrolado na tolha quando ela entrou.
Tinham a chave da casa um do outro por isso bastava terem a certeza de que o outro estava sozinho para que entrassem sem tocar à campainha.
- Amor! Amor cheguei! Gritou Béti assim que pôs um pé dentro de casa.
- Entra querida Respondeu Carlos evidentemente contente com a chegada da amiga. - Tens café feito na cozinha. Eu estou a vestir-me.
- Eu sabia! Por alguma razão te escolhi para tomar conta de mim. Por seres gordo e feio e assim não corro o risco de mais ninguém te querer, porque fazes o melhor café do mundo e me enches de mimos.
-Cala-te minha gralha, ainda mal acordei já tenho que te ouvir aos berros. Pareces uma metralhadora a falar.
- Sim, Sim! Anda mas é, preguiçoso, que já é tarde e eu hoje quero um almoço maravilhoso.
Se não tenho quem me ame compenso a falta de amor com boa comida e com a tua belíssima companhia. Disse principiando a fazer um adorável beicinho que se desmanchou numa gargalhada.
-Imagina os que não tem nem amor, nem comida , nem companhia , com que é que compensam? Perguntou Carlos.
- Não faço ideia. Com liberdade talvez. Famintos, sós mas livres. Respondeu Béti perdendo o sorriso deixando vislumbrar uma nuvem de tristeza a passar-lhe mesmo em frente ao olhar.
Carlos aproximou-se e deu-lhe um beijo na testa .
-Bom dia amiga. És linda sabias?
-Sabia sim, pena que só nós dois vejamos isso e para minha desgraça tu não gostes de mulheres.
Vá mexe-te, bebe o teu café e toca a andar! E larga esse maldito espelho que estás lindo ! Disse-lhe mirando-o de alto a baixo com expressão de agrado trocista, enquanto lhe punha uma chávena de café nas mãos.
Ele bebeu o café de um trago e de mãos dadas desceram as escadas do prédio.
Carlos vivia num bairro antigo, onde ainda existiam as tradicionais mercearias e a concorrência entre elas se fazia também ainda pelo método tradicional:
Relação preço, qualidade dos produtos e qualidade do atendimento.
Béti era tão conhecida no bairro quanto ele. Toda a gente os adorava. Achavam-nos simpáticos, alegres, educados e muito prestáveis. Os mais velhos estavam convencidos que eram namorados e isso divertia-os bastante.
Os mais velhos eram mais bondosos. A sabedoria dos anos e o pavor da morte tinha-os feito perder o veneno que noutras idades quase destrói os corações. A velhice traz de volta a pureza que temos em crianças.
No caso de Béti e Carlos interessava-lhes apenas que eram dois jovens aparentemente cheios de alegria, muito educados e principalmente muito atenciosos. A simples atenção dos mais novos era coisa que os velhotes muito valorizavam e que infelizmente, na maioria dos casos,tinham muito pouco.
Saíram da mercearia ao mesmo tempo que D. Lurdes, a velhota simpática do 2ª andar do prédio mesmo em frente ao de Carlos.
- Dê cá os seus sacos D. Lurdes eu e o fortalhaço do Carlos levamos-lhe isso até a casa. Sugeriu Béti já segurando com firmeza um dos sacos.
- Já não se fazem jovens como os meninos, muito obrigada, agradeço a ajuda.
Desde que o meu Afonso morreu e a Leonor foi viver para tão longe não tenho ninguém que me ajude e confesso já me custa carregar estes pesos, é a velhice!
- Tem de arranjar um namorado D. Lurdes, que a ajude com os sacos e que a encha de mimos, aqui como o menino Carlinhos. Brincou Béti.
-Ai a malandreca! E alguem quer uma velha como eu.
- Então não? Ainda está toda jeitosa, se eu não estivesse já apaixonado eu queria certamente. Respondeu Carlos.
- Oh menino Carlos, sempre me saiu cá um galanteador! Respondeu-lhe a velhinha corando timidamente.
- Ele não está a brincar D. Lurdes, porque não vai aqui aos bailes da Associação dar um pézinho de dança de vez em quando e quem sabe arranja um velhote todo jeitoso que caia de amores por si.
- Ai filha, já não tenho espírito para isso, eu bem sei que os bailes estão cheios de velhas e velhos ainda mais velhos que eu, mas eu já não tenho amigas, nem família e uma senhora não vai ao baile sozinha. Nem sei se a frequência é própria para uma senhora assim… como eu entendem?
- Deixe lá a frequência em paz D. Lurdes. Nunca se sabe por onde andam os príncipes. E quanto à falta de companhia, não é tarde nem é cedo, considere-se convidada para o baile esta tarde. Está mais que combinado! Eu e o Carlos almoçamos e às três horas vamos busca-la para a acompanhar ao baile e atenção que não admitimos recusas, não é Carlinhos? Disse Béti com a sua habitual determinação.
-Claro, nem eu diria melhor. Concordou Carlos tentando em vão parecer também determinado.
Denunciava-o a forma como interrogava a amiga com o olhar.
-Os meninos estão mesmo a ser sinceros? De verdade que tinham paciência levarem a velhota ao baile? Dois jovens, na flor da idade, que não lhes deve faltar com que se entreterem perderem tempo com uma velhota! A velha senhora estava verdadeiramente incrédula.
-Claro que sim D. Lurdes e vai ser bem divertido!Ponha-se bonita e esteja pronta ás 3h. até logo. Respondeu Béti convincentemente sincera.
És louca Béti? Olha o fantástico programa que foste arranjar! Bela tarde! Música pimba no baile da Associação!
Só a mim e só tu para arranjares isto. Ralhou Carlos entre o zangado e o divertido.
Conhecia a amiga e não era a primeira situação semelhante que passavam juntos. A amiga alem de ter um coração de ouro tinha também um optimismo nato e uma capacidade incomparável de tornar esse optimismo contagiante. Era uma verdadeira força da natureza. Um ser impar, com uma energia fora do comum e uma bondade inigualável.
Guardaram todos os seus problemas e almoçaram entusiasmados com a ideia de acompanharem D. Lurdes ao baile.
Tinham os dois, uma forte tendência para o perfeccionismo. – Ou não se faz ou faz-se bem feito. Era uma frase comum tanto a um como a outro. Motivados por essa ideia de perfeição fizeram questão de dar alguma formalidade ao evento vestindo-se da forma elegante e discreta que acharam ser o que mais agradaria a D. Lurdes.
Podia-se dizer que Beti um segundo guarda-roupa em casa do amigo. Costumava gracejar com esse facto: -Se um dia um dos teus namorados vê a minha roupa aqui em casa acha que foi enganado e que tu gostas mesmo é de gajas.
Graças a esse segundo guarda-roupa o seu leque de opções era razoavelmente vasto. Optou por um vestido preto liso de decote redondo e discreto, apenas elegantemente acentuado na cintura por uma fita de veludo preta que apertava com um pequeno laço lateral.
Ele vestia calças pretas e uma camisa branca que contrastando com a sua pele naturalmente morena o tornava particularmente atraente e Carlos sabia-o. - Se os opostos se atraem os contrastes também devem ser atraentes não? Era uma das suas máximas no que respeitava ao seu sentido do que era esteticamente atractivo.
Estavam prontos!
Bonitos, elegantes e cheios de vontade de proporcionar a D. Lurdes uma tarde diferente das tristes tardes que tinha há já tantos anos.
Voltaram a descer as escadas juntos, desta vez de braço dado, devagar e com uma expressão de solenidade quase teatral nos rostos.
Com o mesmo porte atravessaram a rua e com de um sorriso cúmplice acentuaram mais ainda a solenidade das expressões ao tocar à campainha.
A porta a abriu-se e através do intercomunicador D. Lurdes pediu-lhes que esperassem 1 minuto: Desço já, não demoro meninos.
Escutaram-lhe os passos lentos descendo as escadas.
Ela ali estava!
10 anos mais nova.
Vestido verde-escuro em seda, lábios vermelho carmim, colar e brincos de pérolas e o cabelo bem penteado para traz acentuando-lhe a beleza invulgar do rosto.
- Que tal estou? Perguntou com uma encantadora timidez propositadamente infantil.
- Linda, uma verdadeira Princesa D. Lurdes. Respondeu Carlos genuinamente surpreso
-Sou um homem de sorte por estar acompanhado das duas mulheres mais bonitas que conheço. Não sei se sou merecedor desta honra mas prometo tentar portar-me à altura. Afirmou estendendo o braço, primeiro a D. Lurdes e depois à amiga.
-Vamos lá minhas belezas! Disse enchendo o peito de ar assumindo um estilo de machão conquistador.
-Que Atrevido! Respondeu a velha senhora dando-lhe uma leve palmadinha no ombro deixando escapar um sorriso de agrado.
Devagarinho os três de braço dado, Carlos, o cavalheiro no meio, guiando as duas senhoras caminharam para o salão de baile da Associação.
Ficava apenas um bloco abaixo dos prédios onde Carlos e a vizinha viviam mas a verdade é que nunca nenhum dos três lá tinha entrado.
Era um salão enorme e muito antigo. Tudo estava já muito envelhecido, parecendo não passar por uma renovação há muitos, muitos anos. Falta de verbas certamente.
Estava frio devido á falta de ar condicionado ou qualquer tipo de aquecimento. No conjunto o aspecto do local era algo sinistro mas os presentes pareciam não reparar e se reparavam não davam mostras de se importar nem um pouco.
Dentro daquele sitio velho, frio e húmido existia algo que Carlos e Beti não tinham visto nunca e que os deixava boquiabertos: Alegria pura!
Uma banda constituída por três elementos apenas, tocava num palco com dimensão para uma orquestra inteira.
Os homens nos seus fatos domingueiros, as senhoras nos seus melhores vestidos rodopiavam ao som da música de má qualidade e os seus rostos roborizados por algum cansaço próprio da idade já avançada eram o espelho da alegria e diversão sob a sua forma mais pura.
Estavam ali pela procura de alguma alegria e por um assumido e corajoso combate à solidão. Parecia tão simples.
Mas era mais que isso, era um tremendo acto de luta pela vida, um acto difícil e de extrema coragem. Um acto de quem não cruza os braços e alegremente luta até ao fim. Imensamente belo.
As arvores que morrem de pé.
Estes velhos queriam morrer dançando.
-Porque não é assim nos sítios que frequentamos, Carlos? Perguntou Béti, em estado de deslumbre.
- Sei lá amiga, porque somos uns parvos e preferimos encostarmo-nos ao balcão dos bares cheios de estilo e trejeitos previamente estudados à espera de engatar ou ser engatados e voltamos a casa ao fim da noite mais sós do que saímos. Ou pior ainda, voltamos acompanhados não por quem queríamos mas calhou estar disponível.
Tristes e ridículos é o que somos querida! Estes velhos são que sabem!
Agora olha minha linda arranja um senhor jeitoso que dance contigo que eu e esta linda princesa vamos mostrar quem são os reis do baile.
D. Lurdes que estava silenciosa observando tudo à sua volta e fingindo não escutar a conversa dos dois jovens, sorriu.
Acompanha-me nesta dança D. Lurdes. Perguntou Carlos, com uma vénia acompanhada de um sorriso de orelha a orelha.
-Com muito gosto cavalheiro. Respondeu-lhe a velhota com ar deliciosamente coquete de que provavelmente se devia lembrar ainda de outros tempos.
Há coisas que são como andar de bicicleta, não se esquecem nunca.
Béti, imbuída da sua lata habitual foi buscar um elegante velhote vestido de fato preto completo que ao entrar catrapiscou de imediato, destacava-se por dançar como um verdadeiro profissional. Sempre aprendo alguma coisa com esta experiência, pensou.
Carlos dançou com D. Lourdes, que parecia ir explodir de contentamento e mais uma vez se surpreendeu, desta vez por descobrir o quanto ela dançava bem.
Olhou em volta procurando a amiga com o olhar e lá estava ela, tal como já esperava, divertidíssima rindo e imitando todos os passos que o elegante velhote pacientemente lhe ia ensinando.
Voltaram a encontrar-se os três num cantinho do bar que existia no fundo do salão depois de o par de Béti a ter ido acompanhar junto dos amigos tal como mandam as regras da boa educação.
Pediram dois cafés e um sumo para a alegre e ofegante D. Lurdes.
Foi nessa altura que ele apareceu.
Aproximou-se um senhor de ar simpático e bonacheirão, cumprimentou Carlos e Beti e de seguida pousou o olhar no olhar de D. Lurdes e disse deixando transparecer algum receio:
-Estou a admirá-la de longe desde que chegou. É a mulher mais bonita deste baile e certamente das mulheres mais belas que alguma vez vi.
Desculpe o meu atrevimento, mas estou há muito sentado a ganhar coragem para lhe vir dizer isto.
-Oh, muito obrigada, é um exagero mas muito obrigada. Respondeu D. Lurdes com a face ruborizada, tão vermelha quanto as cortinas da mesma cor que existiam espalhadas pelo salão.
-O meu nome é Salvador. Informou.
-Prazer, eu chamo-me Lurdes.
-Lindo nome, próprio para uma linda senhora.
Posso convida-la para dançar, ou seria já muito atrevimento da minha parte? Perguntou o velhote.
-Eu gostava muito, os meus jovens amigos parecem já estar um pouco cansados. Sabe nas danças de hoje em dia eles quase não saem do mesmo sítio por isso não estão preparados para dançar a sério, como no nosso tempo. Disse D. Lurdes rindo divertida e galhofeira.
Carlos e Beti riram também, para eles a sucessão de acontecimentos estava em muito a ultrapassar as expectativas e encontravam-se espantados e enternecidos.
Era lindo tudo o que estava a acontecer.
No meio do salão D. Lurdes e o senhor Salvador dançavam olhando-se profundamente , e os seus passos na mais perfeita sintonia pareciam acompanhar a música do amor que se adivinhava aos poucos ir ecoando no interior dos seus solitários corações.
Carlos e Béti olharam um para o outro e sorriram. Ela deitou a cabeça ano ombro dele como costumava fazer e segredou-lhe: -Parece que sempre é verdade que o amor não escolhe idades. Será que estamos a assistir ao amor a regressar à vida destes dois velhotes?
-Parece que sim Béti. Já viste bem, é coisa de filme, de amor à primeira vista, eles dançam como se nada mais existisse à sua volta.
Ai amiga, sou mesmo maricas, até tenho lágrimas nos olhos.
-Podes crer, és sempre o mesmo chorão. Respondeu Beti gozona não tentando sequer disfarçar o brilho da comoção que também espreitava no seu olhar.
Ali se deixaram ficar encostados ao bar, uma boa hora mais, até que D. Lurdes regressasse acompanhada do seu novo amigo.
-Estou a ficar um pouco fatigada de tanto dançar. O senhor Salvador é um verdadeiro bailarino e eu já não sou uma rapariguinha nova. Gostava de voltar para casa e descansar já me diverti muito hoje.
-É natural que se sinta cansada D, Lurdes, vamos então acompanhá-la a casa. Adeus Senhor Salvador, foi um prazer. Disse Carlos estendendo a mão ao velhote.
- Adeus senhor Salvador. Béti sempre mais efusiva beijou-o na cara e piscou-lhe o olho.
- Adeus meninos, espero que nos voltemos a encontrar brevemente. Respondeu-lhes com uma leve piscadela de olho.
De seguida olhou embevecido para D. Lurdes e a voz saiu-lhe tremula de emoção:
-D. Lurdes foi uma tarde verdadeiramente maravilhosa, no próximo sábado irei espera-la à porta do seu prédio como combinamos.
Estou certo que iremos passar uma tarde mais maravilhosa ainda.
Bom descanso e não se esqueça deste velho que aqui deixou rendido aos seus encantos.
- Até sábado senhor Salvador, também achei a tarde muito agradável.
Estendeu-lhe a mão e com as mãos tocando-se levemente olharam-se nos olhos por breves segundos que para eles certamente pareceram uma eternidade tal era a intensidade do momento.
Separaram os olhares e as mãos quando a velha senhora, sorrindo, deu o braço a Carlos indicando a vontade de se retirar.
Deram uns passos em silêncio até que ela afirmou timidamente: - Para a semana venho novamente ao baile, o senhor Salvador convidou-me e ofereceu-se para me vir buscar à entrada do prédio. Um verdadeiro cavalheiro!
-Também me pareceu D. Lurdes, acho que temos aí uma paixão a caminho! Os seus olhos estão com um brilho especial. Confesse que lá D. Lurdes, ficou completamente caídinha não ficou? Perguntou Béti ansiando pela resposta.
-Quem sabe Beti o tempo o dirá.
Na minha idade aprendemos a levar a vida com calma e um dia de cada vez, vocês jovens é que querem tudo ao mesmo tempo. Os mais idosos como eu têm a calma que a vida nos ensina. Alem disso a memória do meu Afonso ainda está muito presente. Não vou esquece-lo nunca! D. Lurdes falava calma ponderadamente, com a certeza da sabedoria contida nas suas palavras. Um saber que se adquire apenas com a experiência de já muitos anos de vida.
-Tem razão D. Lurdes. Assentiu Carlos. – Mas o Senhor Afonso morreu e poderá respeita-lo na sua memória sempre. O Senhor Salvador está vivo e pelo que vi completamente apaixonado. Está sempre a tempo de começar de novo.
-Quem sabe, Carlos, quem sabe. O amor que vivi com o meu marido foi muito forte, não se pode viver outro assim. Mas gostava de uma companhia isso é verdade. Gostava de começar de novo, como tu disseste, Carlinhos. Estas palavras disse-as baixinho, mais como se estivesse entregue aos seus pensamentos do que a falar para Carlos e Béti.
-Até amanha meus meninos e muito obrigada pela tarde maravilhosa, pensei que nunca mais ia voltar a divertir-me assim, e agora...! Voltou costas deixando a frase a meio.
Carlos e Béti subiram as escadas do prédio a correr. Assim que entraram e Beéti atirou-se para cima do sofá olhou para o amigo e perguntou.
-Carlos, achas que o marido da D. Lurdes a penetrava com a alma?
Como no livro que estou a ler.
-Acho, Béti. Tenho a certeza. Era amor amiga. Amor verdadeiro. Por isso é tão difícil esquecê-lo mesmo depois de morto.
Mas também acho que mesmo não o conseguindo esquecer nunca a D. Lurdes está preparada para começar de novo.
-Começar de novo. Começar de novo. Sim, começar de novo. Repetiu várias vezes Béti pensativa, distante, impenetrável.
Isabel
Fotografia José Arruda

31 Comments:

Blogger veritas said...

Olá Isabel!

É grande o orgulho que sinto ao ser a primeira a comentar. Adoro o esplendor da tua alma, sabes porquê? Porque ele vive, porque ele transparece, porque ele se propaga na tua escrita! Força Isabel, força para continuares uma das tuas mais belas obras, porque a primeira acredito ser o amor que irradias, bem... está tudo interligado...

Bjs.

quarta-feira, novembro 08, 2006  
Blogger Rui said...

Até vésperas do último suspiro, há sempre possibilidade de começar algo... de novo, ou não.

:)

quarta-feira, novembro 08, 2006  
Blogger Bruna Pereira said...

“...ela abriu as pernas e ele penetrou-a com a alma, porque é assim que se penetra um ser que se ama. A alma usa o sexo apenas como instrumento”

Linda.
Depois desta frase não sei dizer mais nada...
a não ser que continuarei a vir aqui.
;)

quarta-feira, novembro 08, 2006  
Blogger Tita - Uma mulher, Um blog, algumas palavras said...

Arrepiei-me!
Estou comovida, enternecida. Está fantástica. Humana, sensível, actual.

Adorei Isabel, Parabéns e confesso que estou ansiosa por mais. Fiacava aqui a ler-te horas a fio.
Um beijinho e um bom dia!

quarta-feira, novembro 08, 2006  
Blogger legivel said...

Começar de novo (quando perdemos "o fio à meada" de algo que gostamos) deve ser sempre bom. De preferência deve-se fazê-lo com alma e com... estilo. Teorizo eu; que não tenho grande prática no assunto. Porque raramente "perco o fio à meada"...

Cumprimento legíveis.

quarta-feira, novembro 08, 2006  
Blogger Maria said...

Só uma frase:

Não me perdoo por te ter descoberto só hoje!

Continua!

quarta-feira, novembro 08, 2006  
Blogger lince said...

Foi muito bom ter aceite o teu convite.
Parabéns, por este teu espaço.
Bjs.

quarta-feira, novembro 08, 2006  
Blogger Teresa Durães said...

Enquanto se existe a possibilidade de recomeçar também existe!
:))

Boa noite!

quinta-feira, novembro 09, 2006  
Blogger Sonhos e Devaneios said...

Isabel, vim aqui te ver e ler detalhadamente esta linda historia de amor....interessante...é nas pequenas coisas que esta a felicidade..num baile simples...nas pessoas normais..em momentos unicos...a vida nao e vivida planejada ao extremo as vezes momentos simples sao eternizados em nossas vidas....amei sua historia...contada com a alma...beijos joao

quinta-feira, novembro 09, 2006  
Blogger pensamentos_vagabundos said...

"...ela abriu as pernas e ele penetrou-a com a alma..."isso é amor...
beijo vagabundo

quinta-feira, novembro 09, 2006  
Blogger sentidos said...

Olá Isabel!! Foi com entusiasmo que recebi o teu recadinho. Antes de mais, os meus sinceros e sentidos Parabéns, não sei qual dos dois excertos gostei mais e, acredita que estou falando mesmo a sério. Saliento duas ilações que neste excerto tirei: O valor da calma e sabedoria que nos é transmitida em vida pelos mais velhos, e segundo, o sabor único e infinito de um grande amor, ou direi, "daquele" grande amor. A criatividade mais uma vez emana nas tuas palavras. Mas queria te perguntar algo, é que, há pequenos pormenores tão bem descritos, pequenas coisas, e a forma como descreves e relatas cada momento, sinto a ligeira sensação que este conto tem um sabor, uma "pitada" de uma vida já vivida, um sabor que este conto fez parte duma realidade. Bem, se calhar é mesmo fruto desta tua linda e fértil imaginação, pois, senti cada momento deste excerto, parece que estou a vivê-la...adorei...e não te esqueças….continua.

Ah!! Percebeste o que quis dizer em relação "grande e único amor"??
Por essa razão, é que a Béti continua "impenetrável".

Um Bj Sentido

quinta-feira, novembro 09, 2006  
Blogger DelfimJPeixoto said...

AI Isabel...senti um arrepiozinho e ao mesmo tempo um ar morno no coração!
Está lindo!
(Para quando uma edição dos teus escritos?)
bjs ternos

quinta-feira, novembro 09, 2006  
Blogger Vera said...

Amiguinha, tenho um desafio para ti no meu blog!
Beijinhos

quinta-feira, novembro 09, 2006  
Blogger ana prado said...

Isabel, confesso, fico cada vez mais surpeendida com o que por aqui vou lendo.

Um grande, grande abraço.
até breve.

quinta-feira, novembro 09, 2006  
Blogger vinte e dois said...

Tb vim conhecer o teu cantinho ;) Mas terei que cá passar com o tempo menos contado para ler os teus posts com calma... são compridos ;)

Vou deixar a resposta à tua pergunta no meu blog :)

quinta-feira, novembro 09, 2006  
Blogger Alexandre said...

Tive que fazer um print para ler e reler o teu texto e como eu hoje estou num dia complicado também me vieram as lágrimas aos olhos porque soubeste descrever tão bem as situações que eu senti-me lá, não me viste mas eu estava lá observando a Béti, a D. Lurdes, o Salvador ...

A sério, escreves muito bem, e eu costumo dizer que sou muito exigente com o português, embora não seja professor.

Os diálogos são muito bons e o vocabulário flui agradavelmente. Já pensaste em reunir os teus contos e, quiçá, publicá-los em livro? Fica a sugestão! E aguardo o próximo, virei cá à procura...
Beijinhos!

quinta-feira, novembro 09, 2006  
Blogger VEM SONHAR COMIGO said...

Adorei.E essa da alma que penetra...incrível.Continua.Venho cá sempre.assim é o verdadeiro Amor. ;)

Bj d
d

quinta-feira, novembro 09, 2006  
Anonymous Secreta said...

Eu penso que há sempre possibilidades de começar de novo ... seja o que for...
Bom fim de semana.
Beijito.

sexta-feira, novembro 10, 2006  
Anonymous António Melenas said...

Cara Amiga,
foi uma honra e um prazer visitar este seu blogue. Vê-se que é uma mulher corajosa e com talento. Começar tarde? Eu fui para a universidade com 42 anos, licenciei-me (em românicas) aos 47,em Março vou fazer 78 e cá
ando nestas andanças. Vi praticamente tudo que aqui tem escrito e vê-se que tem muito dentro de si para partilhar comnosco. Este conto "Começar de novo" aborda um tema interessante, está muito bem e escrito e, coisa que nem todos conseguem, proporiona uma leitura clara, directa e muito aliciante.
Vá em frente, pois talento não lhe falta.
Um abraço
António Melenas

sexta-feira, novembro 10, 2006  
Blogger Vida said...

Lindo amor, vale a pena viver só para sentir um amor como este, que ultrapassa tudo, até o tempo... mas é muito positivo saber recomeçar de novo.
Obrigada Isabel por este texto. Beijinhos

sexta-feira, novembro 10, 2006  
Anonymous Jofre Alves said...

Eis aqui para desejar um óptimo fim-de-semana, enquanto aprecio esta página, sempre atractiva, eternamente interessante, continuamente apelativa, por todos os motivos. Um hábito que se tornou imprescindível, claro, porque a qualidade é muita, como se vê neste lindo e significativo texto.

sexta-feira, novembro 10, 2006  
Blogger Luis Duverge said...

Vai ao meu canto ...lês o texto ...e vês como perde sentido a palavra amar.
Como dizia a Teresa e bem, é sempre possível recomeçar ...e voltar a amar. Tudo depende de como te amas, de como te entregas na relação ... o passado e da memória selectiva das pessoas. Podes não ter a melhor casa, carro ...etc. Mas uma relação saudável é importante.
um beijo ...bom fds.

sexta-feira, novembro 10, 2006  
Blogger Eu said...

adorei...
bom fim de semana

sexta-feira, novembro 10, 2006  
Anonymous Eu.... said...

uma verdadeira prosadora, acho que deves continuar....bjs

sexta-feira, novembro 10, 2006  
Blogger Betty Branco Martins said...

Olá Isabel

O amor é algo Sublime! Só quando ele existe - tudo faz sentido.

Beijinhos com carinho

BomFsemana

sábado, novembro 11, 2006  
Blogger pb said...

Que conto lindo, terno , fantástico !! Obrigado pela partilha !! um beijinho

sábado, novembro 11, 2006  
Blogger o alquimista said...

VAle a pena viver, vale a pena sentir quando é tudo tão verdade tão sentido...LI E RELI, e retive o texto se não te importas...


Doce e terno beijo

sábado, novembro 11, 2006  
Blogger Alexandre said...

Olá, voltei para continuar a dar-te mais força com os teus escritos. Ah. e agora venho acompanhado por um diospiro, a minha imagem de marca por estes tempos!
Beijokas. Tudo de bom! Se gostares de chocolate tenho um post e uma musica no meu blogue...
Beijokas

sábado, novembro 11, 2006  
Blogger Alexis Coald said...

Amiga
Dicen que las segundas partes nunca superan a la primera parte, que gran error,tu escrito lo demuestra te felicito.
Perdona por comentar ahora, es que estaba enfermo y no podía traducir bien el escrito, ahora pude leerlo bien.

Te abrazo y mucha luz amiga

segunda-feira, novembro 13, 2006  
Blogger Corvo Negro said...

...who's gonna drive you home
tonight... -adoro este tema velhinhoooo. Curiosamente, adquiri-o muito recentemente num download.
Sabes, achei curioso o teu "informou-o" ou o "comunicou-lhe".
"-Bom dia amiguinho, escuta isto: “...ela abriu as pernas e ele penetrou-a com a alma, porque é assim que se penetra um ser que se ama. A alma usa o sexo apenas como instrumento” -Isto, escrito no ouvido, faz-me sentir dedos suaves no rosto!
Admiro a fúria com que te dispersas nas palavras... entendes porque escrevo "fúria", não entendes?

segunda-feira, novembro 13, 2006  
Anonymous Luigi said...

Desculpa não estar a acompanhar o ritmo, escreves à velocidade da luz!Gosto muito destas conversas informais e expresões que utilizas. Faz-nos sentir bastante à vontade.
Bem fico por aqui pois ainda tenho que te ler mais

beijinhos

quarta-feira, novembro 15, 2006  

Enviar um comentário

<< Home