sexta-feira, setembro 22, 2006

O meu anjo/borboleta

Na vida por vezes o conforto
vem de sitios estranhos
que acabam por se tornar familiares
e de uma beleza invulgar

Vou contar-vos uma longa história:

Toda a minha vida
quase até ela morrer, vivi com uma tia e a minha avó
Houve mesmo uma altura
em que estive separada dos meus pais
vários anos, e a tornei minha mãe

Esta ausência dos pais
Foi uma experiência que me fez crescer
talvez demasiado rápido
me marcou para sempre
e me fez ganhar um anjo

Eu explico:
senti-me só, tinha 7 anos
sem mãe nem pai
e só com duas velhas
a minha avó e a tal tia
então:
Comecei por ter que crescer
e rápido
Depois fiz da minhã avó minha mãe
Só depois
descobri quão linda era pessoa
que escolhera para mãe

A minhã avó era feia,
fisicamente
baixinha
e gorducha
A minhã avó era
rezingona
pouco inteligente
forreta
insensivel
irritante
critica ( em excesso)
ignorante
e um pouco maldosa até
mas
adorava-me
não se limitava a gostar de mim
A minha avó adorava-me

Comigo
e aos meus olhos
era linda

Dava-me o mundo
se pudesse...

Deu-me tudo
e de tudo,
ralhetes
brigas
gritos
discussões
queixas
amor
carinho
protecção
dinheiro
bondade
apoio
tudo...

Cozinhava para mim,
especialmente para mim.
A qualquer hora do dia,
sempre que eu pedisse,
tudo o que eu pedisse,
Andava a pé kms
à procura dos melhores
e mais frescos ingredientes.
Por isso o que fazia
tinha um gosto especial.
Sabia à ternura e à adoração
que tinha por mim.

( quero confessar que estou a escrever e a chorar
passaram 14 anos e ainda choro a falta dela)

A minha avó
deu-me todas as suas jóias
quando eu tinha 13 anos.
Guardou-as
num cofre a vida inteira
sem as usar
e deu-mas todas
sem hesitar.
Queria simplesmente
que fossem para mim
a sua neta adorada.

Sabem que fez,
a neta adorada?
Eu
perdi ou
vendi tudo
aos poucos,
anos mais tarde.
Imperdoável !
Restam-me apenas
as escravas de ouro
que guardarei para sempre.

A minha avó
deu-me as suas lágrimas.
Quando se zangava
a seguir
ficava muito, muito, triste
e escondia-se para chorar.
Fazia beicinho.
Juro que aquela velhinha
feiosa a fazer beicinho
é a imagem mais enternecedora
que guardo.
Ficava tão linda
a minha avó...

Estas lágrimas
e o seu doce beicinho
só a mim mostrava.
Era o nosso segredo.

Só eu podia saber
que ela tinha um coração
e que era lindo
Só eu podia saber
que ela tinha sentimentos
e que eram lindos
Só eu podia saber
que tinha alma
e que era linda

Como se o seu coração seus sentimentos sua alma
tivessem como as jóias sido guardados para mim
a vida inteira.
Até ao dia em que tambem isso me entregou.

A minha avó
deu-me tudo.
Deu-me a mim
e só a mim
o seu lado belo.
O mais belo que tinha
escondido
como um tesouro,
guardado durante
uma vida,
reservado para mim.

A minha avó era linda
e adorava-me.
Para mim ela era a mais linda
e eu adorava-a.

Um dia ela morreu
e eu que estava longe
do país
recusei-me a tomar conhecimento.
Esta á a verdade, juro!
Disseram-me
e não reagi.
Fui para uma festa,
diverti-me,
e simplesmente não tomei conhecimento

Até 1 ano depois.
No avião de regresso a Portugal
disse que assim que chegasse
ia pedir à minha avó que cozinhasse para mim
Aí tive de ser informada, pela segunda vez,
que a minha avó tinha morrido.
A minha avó tinha morrido!
A minha avó tinha morrido!

A consciência desse facto levou
muito tempo
muita dor
muita saudade
muita lágrima

Durante esse tempo
fui sempre sentindo
a sua presença
tomando conta de mim,
olhando por mim,
sempre!

Toda a minha vida
acreditei em anjos
e sempre vi os anjos
como borboletas
de cores suaves
esvoaçando
sobre nós.

Eu tenho
a borboleta mais bela
o anjo mais protector
esvoaçando
sobre mim.

Está comigo
sempre
sempre
sempre
sem me abandonar nunca.

A minha avó
é o meu anjo/borboleta

Isabel ( com os olhos lavados em lágrimas de saudade)

Para a minha avó: Desculpa avó ter recebido tanto e nunca te ter dado nada, mas adorava-te, adoro-te sempre, espero que saibas...


"Alegória del Sol"
Salvador Dali

2 Comments:

Anonymous Miguel said...

LINDO.....
FIZESTE-ME CHORAR A MIM...
COM O TEU ANJO/BORBOLETA TAMBEM ME FIZESTE SORRIR...


QUANTAS E QUANTAS VEZES
SO REPARAMOS A FALTA
QUE AS PESSOAS NOS FAZEM QUANDO ELAS JÁ NÃO ESTÃO LÁ.


MIL BEIJOS

sexta-feira, setembro 22, 2006  
Blogger Teresa Durães said...

deu de certeza porque se não tivesse dado nunca a teria agora a seu lado

uma boa noite para si
e um beijinho!

sexta-feira, setembro 22, 2006  

Enviar um comentário

<< Home