segunda-feira, setembro 18, 2006

À freira assassinada

À freira assassinada
eu peço desculpa...

O Papa não pediu
nem a ela nem a ninguém
Eu peço
Foi incompreendido
A intenção era das melhores, não o é sempre?
Era um discurso só para intelectuais
que as televisões
que também por acidente
filmaram e difundiram.
E aconteceu que ainda por "azar" foi mal compreendido
pelo mundo dos menos intelectuais
As intenções no Supremo Representante
"Santa" Igreja Católica
Eram as melhores... como sempre, já o sabemos!
Jamais se esperou
na "Santa" igreja
que fosse tão maldosa
a interpertacão
de uma tão "singela" referência
ao profeta Maomé.
O Papa apenas se dirigia
ao tal grupo de intelectuais
e nunca, jamais, imaginou,
nem ele nem nenhuma
das mentes iluminadas
pelas mãos das quais o polémico ( sem razão, obviamente!) discurso
terá certamente passado antes de ser lido,
as consequências que daquelas
tão inocentes palavras poderiam surgir.
Foi escrito,
sem qualquer outra intenção que não fosse
a simples partilha de conhecimentos
entre um grupo de seres escolhidos,
moral e intelectualmente superiores ,
tão superiores que não fazem parte do resto do mundo
Vivendo assim na mais completa e absoluta cegueira.
Só assim se poderá compreender
que não vissem as câmaras de televisão
e dai tirarem a conclusão básica de que existiria divulgação
do tão bem intencionado e tão injusticado discurso.
Também só assim se compreenderia
que não existisse a mínima noção de quais iriam
ser as repercussões no mundo dos menos iluminadados
ou dos igualmente iluminados
mas por teorias razões e crenças
radicalmente diferentes
Tão diferentes
Que por elas
em nome delas
a freira foi assassinada
Eu quero apenas perguntar
Onde começou este assassinato?
Sua Santidade o Papa
"não pode" pedir desculpa
muito seria posto em causa se o fizesse
"Santa" hipocrisia
Graças a Deus
eu não sou ninguém
por isso posso
e peço desculpa à freira assassinada
e deixo-lhe flores
Flores com o nome: sempre noivas
Ela era noiva de Cristo
A sua eterna noiva
O mesmo Cristo em nome do qual
Sua Santidade deverá sempre falar
e falou
falou
e uma noiva de Cristo está morta




Para ela estas flores




" Sempre Noiva"
Fotografia de João Novais



Cristo Cuxificado
Morreu por todos nós diz a Igreja...
Por quem morreu a sua noiva?







"Crucifixión"
Salvador Dali



Que me desculpem os mais crentes, os com fé na Igreja Católica, os que acreditam nas boas intenções do Vaticano, a vós, simples homens e mulheres de fé curvo a minha cabeça e peço
humildemente apenas cuidado !... cuidado com o que se acha justificado em nome da fé...
Se a fé é isto
Se em nome da fé se pode fazer isto
Obrigado meu Deus
por me teres deixado, na outra margem
talvez esteja mais só
talvez
mas tenho limpa a consciência
Agora tenho vergonha
do que fazem os meus iguais
Estou triste e envergonhada por eles
Gritei
Este foi o meu grito
Pedi desculpa
este foi o meu pedido
Agora vou descansar
Vou atravessar
a ponte
correrendo para outra margem
onde uns braços abertos
me esperam
os braços do meu amor

Isabel

Amo-te Miguel, obrigado por esse abraço ...





Desconheço o autor da fotografia
Evocação
I
Não memorizo aldeias
Nem aldeões:
Meu cabelo ao vento
– lúcido, tardio –
Exibe o corte,
a ruptura
a outra margem;
A imagem destorcida em mim
Não é doce nem crédula:
Pus a vida acima da Era
O corpo acima da cela;
Os pés acima do cavalo
... e, se assim não fosse,
aí sim, seria errado.

II
Mar. Terra. Cana. Terra-Seca:
Não é preciso ir muito, para ser estranho...
Das entranhas do dia, nasço
– não se nasce do nada,
se surge do ambíguo.

Não tardo nem contento, contemplo;
E o chover não mais distrai
O piscar de olhos
– rebento do adeus
sem vestígios.
Ah, atordoar infantil!
Versos de outrora conjugados, lentos
Nada mudou......
ainda me sou,
rebentar violento.

III
Pernas acima da Terra.
Pó por cima de nós, dos sóis, dos séculos
(e não há outra ruptura
senão ser girassol!)
O cavalo segue abaixo, distante
Não é preciso estar acima,
para estar melhor...
Não me abarco
E piso,
Como quem pisa um tapete, nuvens
Detendo nas mãos um telefone...
O que ferirá mais, senão a palavra?
Palavra dúbia.
Anti-prece.
Anti-deus.

IV
Contemplo. A chuva. O guarda-chuva. A náusea.
Nos olhos pardos, o passado pesa...
E há ferida: quanta dor inflama!
Quisera não ser eu,
poeta ou passo;
Palácio erguido num confuso brio:
Meus sonhos são faces do céu que crio
Poemas ávidos, avós reversos...
... e isso, ninguém sabe.

V
Na timidez, procuro-me só:
Assim sou no extenso vão da palavra!
Quisera ser morena, alva – viúva
Tudo menos poeta e colibri:
Pousar e ser única– aldeã!
Talvez feliz.

VI
Campo, campina. Galo-de-Campina.
Há tanto, tantas lembranças mortas...
O verde sucumbiu aos olhos
Que, no chão, semeiam concreto.
Na outra margem,
lá, sempre lá,
Fico. Reservo. Esqueço...
Lanço ao rio o tonel
o túnel de meus anos.
Não hei de lembrar, como sempre.

VII
Padeço muito e lento,
muito lento.
Se chuvas, lágrimas, seres,esvaem-se,
algo fica...
Certas canções não sanam as lacunas do tempo;
Tempo-corpo, poema.
(Ah, se não fosse sopro, não fosse águia, cerveja...
se talvez flechas, não telefone...
se apenas mulher... não essa sina!)

VIII
Cruzar bares, mares, risos
E na outra margem
a palavra está...Cardíaca,
a alma reclama
Seu desejo último
– ávida, certa.

IX
Vivo;
Como isso não diz muito, adeus...
Sempre planícies por trás de serras
E rio entre montes;
sigo.
Não responda o adeus
(nem a deus peço):
Sempre mais uma ponte e um riacho
E um cavalo para domar...

X
Só,
Mas há outra margem;
E, por ser ainda crédula,
Um novo deus

Virgínia Celeste Carvalho

3 Comments:

Blogger o lápis said...

Mulher de alma cheia.


Tu.


Volta sempre :))

segunda-feira, setembro 18, 2006  
Blogger Eu said...

um grande beijo, gostei do post, cheio de sentimento

segunda-feira, setembro 18, 2006  
Blogger inBluesY said...

só li um bocado da 1ª parte, amanha termino sim, e não são promessas vãs, poucos são os blogs q tenho tempo (pq tenho pouco tempo) este post merece.

1 bj

segunda-feira, setembro 18, 2006  

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